A última chance de David Beckham

Sorridente num terno Armani, David Beckham posou para fotos na janela da cabine do Airbus da British Airways como o maior ícone da seleção que busca quebrar, na Copa da Alemanha, um jejum de 40 anos. Mas o capitão da Inglaterra atualmente não apenas parece um líder de caráter tão simbólico quanto o da Rainha Elizabeth II como o torneio surge como a última chance de deixar sua marca mais pelo que faz de bom na grama do que nas passarelas. Especialmente para uma torcida cuja paciência não é eterna.

  Aos 31 anos, Beckham já garantiu um patrimônio capaz de sustentar futuros bisnetos. Mas grande parte de sua fortuna se deve ao marketing, sobretudo à imagem capaz de vender de chuteiras na Europa a óleo para automóveis no Japão. Ontem ele desembarcou em Baden-Baden sabendo que os gramados alemães darão o veredicto sobre seu papel na história do futebol.
  O inglês, por enquanto, ainda é um jogador de clube. Ganhou uma penca de títulos pelo Manchester United, com destaque para a Liga dos Campeões de 1999. A transferência para o Real Madrid, em 2003, pareceu mais motivada pelo potencial de marketing que pelo pé direito valioso em jogadas de bola parada. Na última temporada, no entanto, Beckham foi um dos poucos do elenco que escaparam das críticas por mais um ano sem títulos.
  Na seleção, Beckham vive de recordações, como o golaço de falta nos acréscimos de uma tensa partida contra a Grécia que classificou a Inglaterra para a Copa de 2002, ou o pênalti que garantiu a vitória sobre a Argentina na competição, que serviu para redimir o meia da expulsão infantil que prejudicara o English Team em partida contra o mesmo adversário em 1998.
  O problema é que Beckham ficou nisso. E o pênalti que chutou fora do Ataturk Stadium numa partida decisiva com a Turquia, nas eliminatórias para a Eurocopa de 2004, foi seguido por uma cobrança desperdiçada contra os franceses e outra bola isolada na disputa de pênaltis em que a Inglaterra acabou eliminada do torneio. Desde então, companheiros de equipe mais jovem como Frank Lampard e Steve Gerad assumiram o papel de heróis para torcedores e a mídia  do país.
  – Beckham conseguiu mudar a lei que determinava que se um ícone era preciso ser o melhor. Nem o mais fanático fã de Beckham o colocaria entre os 10 maiores do mundo. A questão é: Beckham será lembrado como craque ou celebridade? – diz John Carlin, correspondente do jornal ´´Observe“ em Madrid e autor de um livro sobre o capitão.
  Beckham tem mostrado otimismo com as chances inglesas na Alemanha. Mas se a classificação para a segunda fase parece fácil, num grupo formado por Paraguai, Suécia e Trinidad e Tobago, resta saber quão longe o time poderá ir sem Wayne Rooney, cuja presença na Copa ainda é uma incógnita por causa de uma fratura num dedo do pé esquerdo.
  Os ingleses já garantiram um título: o da comitiva mais inchada. Na delegação que chegou ontem à Alemanha, há 30 pessoas não diretamente ligadas ao time, de um chef com passagem pela cozinha do Dorchester, um dos hotéis mais luxuosos de Londres, a um técnico responsável pela edição de fitas de vídeo com partidas de adversários. Na bagagem, uma TV de tela plana para cada jogador e milhares de saquinhos de chá.